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Patrono: Celso Furtado |
Por uma política de promoção do pleno emprego no Brasil. | Atualizado em: 02/07/2008 |
EditoriaisA família de Lula nunca toma dinheiro emprestadoEditor-chefe Na última terça-feira, no mesmo dia em que estava sendo inaugurada no Congresso Nacional a Frente Parlamentar pelo Pleno Emprego, o presidente Lula recorreu de novo à surrada metáfora de que o Estado tem que ser igual a uma família prudente, ou seja, em face de uma crise orçamentária, deve cortar os gastos. Confesso que começo a me cansar de olhar para a Presidência e ver, no lugar de um estadista, um líder sindical pouco informado. O Estado nunca pode ser igual a uma família diante de uma crise, porque é justamente na crise que o Estado deve gastar mais do que arrecada. Uma família cuja crise consiste na perda do emprego ou na queda da renda do trabalho certamente não pode recorrer a empréstimos, porque não tem garantias a oferecer aos bancos. Em geral, recorre a um agiota se está numa situação extrema de falta de dinheiro. Contudo, até os agiotas precisam de garantia. Além disso, este é um recurso que logo se esgota. Sim, é verdade que uma família em crise tem que cortar os custos. É verdade também que os filhos ficam subnutridos e os pais em desespero. Alguns vão para a marginalidade, outros se matam. Não é uma questão de prudência. É uma maldição sobredeterminada pela política econômica. Um Estado cuja crise social deriva do alto desemprego não tem que cortar custos. Tem que elevar seu dispêndio. Deve fazer isso independentemente do nível prevalecente da dívida pública. Aumentar o dispêndio, recorrendo a empréstimos (déficit público), é a única forma de mobilizar dinheiro do setor privado que está ocioso para o sistema produtivo. Não sei se é possível enfiar isso na cabeça de um metalúrgico mal informado, ou manipulado por neoliberais, mas a crise de desemprego, do ângulo empresarial, é uma crise de falta de oportunidade para investir o dinheiro, não de falta de dinheiro para investir. Nossas grandes empresas estão com dinheiro sobrando no over. São mais de R$ 800 bilhões, incluindo o dos bancos. O BNDES está com dinheiro sobrando em caixa, porque não tem tomadores. Não vai cumprir seu orçamento para este ano, a despeito de todos os esforços para emprestar do seu ex-presidente Carlos Lessa. Claro, só um empresário estúpido vai investir se falta demanda. E com renda do trabalho em queda por cinco anos seguidos e uma taxa de desemprego nos níveis mais altos de nossa história, não há como esperar aumento da demanda. Ficamos sempre oscilando no fundo do poço. Nessa situação, só há dois caminhos para estimular a demanda: ou o aumento do superávit comercial e em conta corrente, ou o aumento do dispêndio público. Nosso superávit comercial tem aumentado, mas somos uma economia continental relativamente pouco aberta, e o efeito dele é limitado sobre a geração do emprego. No ritmo que estamos, teríamos que conseguir um superávit realmente brutal por anos seguidos a fim de que a economia gere os empregos necessários para dar conta dos quase 2 milhões de jovens que entram anualmente no mercado de trabalho e para reduzir o estoque de desempregados. Portanto, caímos na receita keynesiana clássica de que, com alto desemprego, só é possível superar a crise mediante uma política forte de dispêndio público deficitário. Ninguém deve ter medo de déficit. Nós temos feito déficit nominal há anos, e o Governo não parece preocupado com isso. Acontece que o déficit nominal deste Governo não gera crescimento. Gera apenas transferência patrimonial e de renda para os titulares da dívida pública, através dos juros estratosféricos. O déficit de que precisamos é um déficit que significa gastos efetivos do Governo, para mobilizar a capacidade produtiva da economia. Foi assim que os Estados Unidos e a Alemanha saíram da Grande Depressão dos 30, como foi assim que a Europa Ocidental entrou num ciclo de prosperidade sem precedentes no pós-guerra. É preciso que o dinheiro do setor privado que está parado no over entre no circuito produtivo, gerando renda, bens e serviços. Como o Governo não pode simplesmente confiscar esse dinheiro, o lógico é que o tome emprestado. Isso significa fazer déficit público. Por certo que essa política não é para durar eternamente. Na medida em que a economia entre em crescimento sustentável, e chegue próxima do pleno emprego, volta-se a uma política fiscal mais conservadora, de equilíbrio orçamentário ou de um pequeno superávit. Exatamente como aconteceria com uma família prudente que tem crédito: ela enfrenta a crise tomando emprestado, porque sabe que, no futuro, recuperará sua renda e poderá pagar. |
| www.desempregozero.org.br - Por uma política de promoção do pleno emprego no Brasil. |