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Patrono: Celso Furtado |
Por uma política de promoção do pleno emprego no Brasil. | Atualizado em: 29/09/2008 |
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APRENDIZES DE FEITICEIROS “Não podemos atingir a liberdade que procuramos, a menos que compreendamos o
O Brasil e o restante da América ibérica passam por transformações profundas nos últimos anos. A derrota de candidatos vinculados ao neoliberalismo é patente. Seus discursos encontram-se esvaziados e desvinculados de respaldo perante os respectivos cidadãos. No entanto, isso não significa que a retomada de utopias mais igualitárias e democratizantes seja facilmente exeqüível. No que diz respeito ao projeto do Mercosul, muitos fatores tumultuam a agenda de construção e consolidação institucional do bloco. Fatores inclusive que escaparam ao rigor analítico do Itamaraty. Seria possível o Brasil aceitar um projeto de integração sul-americana sob a confusa liderança ideológica do senhor Hugo Chavez? A realidade vem mostrando que não. Houve momentos recentes em que se disse oficialmente que a América do Sul não seria a natural extensão do projeto nacional brasileiro, mas sim representaria sua integralidade. Compreende-se o jogo de palavras no campo diplomático, entretanto, sabe-se que qualquer projeto nacional opera a partir de variáveis endógenas e sua correlação com fatores exógenos. O peso da tradição e da história não pode ser negligenciado. No século XIX, ao passo que as repúblicas da América hispânica se dilaceravam em lutas de caudilhos o Brasil consolidava seu território e representava um claro contraponto ao mando que imperava naquele espaço. Diversas disputas por fronteiras e territórios assolaram a história da América do Sul. O Império do Brasil soube defender os seus interesses territoriais, apesar do instituto da escravidão praticado pelos donos dos meios de produção. Simon Bolívar foi derrotado em 1826. Ele haveria então dito que seria mais fácil arar no mar do que se construir um projeto integrador na América hispânica. A histórica fratura política em Espanha reproduzira-se no Novo Mundo. O ressurgimento recente das idéias de Bolívar, incluindo os ajustamentos às especificidades brasileiras, não pode ser encarado fora do quadro de crescente descrença quanto aos limites dos sistemas democráticos expressos no âmbito da tradição cartorial dos respectivos Estados nacionais. Certamente tratou-se de um sopro de esperança para que mudanças estruturais fossem impulsionadas. Não foi isso que se sucedeu. O personalismo ressurgiu na América do Sul e o mesmo buscou imprimir um rumo de políticas clientelistas outrora integrantes do portfólio das oligarquias vinculadas ao complexo primário-exportador. Além disso, observa-se que os velhos esquemas patrimonialistas não foram superados. Novos atores assumem a liderança desses empreendimentos em parceria com os grandes grupos econômicos de sempre. Benesses continuam sendo distribuídas pelos governos aos amigos dos regimes. O processo de construção da União Européia haveria de ensejar uma reflexão sobre os rumos na América do Sul. Se a Europa, que vivenciara tantas guerras e traumas, conseguira organizar um complexo processo de construção política, por que não se poderia fazer algo similar na América do Sul? A análise desse processo começa a ser reavaliada no presente. O papel dos EUA foi crucial no pós-II Guerra. A bipolaridade e o contexto de destruição no pós-guerra não poderiam ser negligenciados pelos estrategistas norte-americanos. Varrer qualquer tentativa de deslocamento de bloco exigiu a inteligência e a engenharia política de Washington. Acordos de cooperação deveriam integrar a nova ordem na Europa social-democrática. Na esteira desse processo, os acordos do Carvão e do Aço e a Comunidade Econômica Européia emergiam como instâncias pacíficas para a resolução de conflitos e a mediação de interesses. Destaca-se o papel de estadista do chanceler Konrad-Adenauer, sempre intransigente na defesa dos interesses alemães, operando para alargar as margens de manobra do povo alemão. O Plano Marshall ajudaria a estancar a fuga de capitais da região beneficiada e forneceria, portanto, a oportunidade de mobilização social para a reconstrução européia. Não se deve esquecer que o respectivo plano causou o fenômeno da evasão de divisas na América do Sul. Balanços de pagamentos abalados e a administração de câmbio foram conseqüências. A partir de 1948, o Brasil vivenciaria quinze anos de políticas econômicas democráticas de corte desenvolvimentista. Os estrategistas brasileiros de então, ainda muito citados pelos aprendizes de feiticeiros de hoje, aproveitavam as margens de manobra sistêmicas para impulsionar o país. Eles reconheciam no realismo das relações internacionais, a Realpolitik, a tensão entre fortuna e virtude. Reconheciam também que o Brasil era bem diferente da América hispânica e que qualquer projeto conjunto haveria de exigir a gradual construção de acordos temáticos. Grandes projetos binacionais, como é o caso de Itaipu, emergiram na esteira dessa concepção. O ambiente sul-americano atual vive um momento de elevada tensão. Consagram-se nas urnas das eleições presidenciais representantes populares que enxergam no Brasil um país subimperialista. A Bolívia, o Equador e provavelmente o Paraguai devem formar esse eixo. A Venezuela, ativa patrocinadora de lideranças emergentes, já não acredita numa aliança estratégica com o Brasil. Em síntese, a República Federativa do Brasil passa a representar o status quo da miséria desses povos. Não é esse o caso da Argentina. Essas nuanças perpassam as cabeças dos aprendizes de feiticeiros da geopolítica. Mas então o que se pode fazer no atual contexto? Haveria um “novo paradigma geopolítico” a ser perseguido? Certamente que sim. A veiculação na grande imprensa internacional de que US$ 3 trilhões estão nas mãos de fundos soberanos deveria provocar alguma reflexão no Brasil. Parte dos recursos provenientes das divisas acumuladas por países se reverte em fundos de investimentos dos respectivos Estados nacionais. Figuram na listagem os seguintes países: Emirados Árabes, Cingapura, Noruega, Arábia Saudita, China, Kuait e Rússia. Nenhum deles da América ibérica. Ao invés da tradicional compra de títulos públicos do Tesouro norte-americano, alguns países decidiram partir para a ofensiva. Eles estão comprando ativos nos países desenvolvidos e, portanto, estão buscando inverter a lógica de economias retardatárias de enclave. As reações já se fizeram sentir no mundo desenvolvido. A chanceler alemã Angela Merkel se pronunciou adepta do “patriotismo econômico”. Friedrich List e seu sistema nacional de economia política estão sempre vivos na Alemanha. Como mostram os recentes debates protecionistas no Congresso norte-americano, há uma corrida desenfreada para evitar a desnacionalização de empresas consideradas estratégicas. Novas regras do jogo devem surgir desse complexo processo. Como o Brasil pretende se posicionar? Eis uma questão que os aprendizes de feiticeiros ainda precisam responder. Rodrigo Loureiro Medeiros
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