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Atualizado em: 29/09/2008

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Artigos

Uma parábola argentina:
A República de Otária

Raúl Scalabrini Ortiz
Traduzido por Henrique Magalhães

Nota do Tradutor: "Prezados editores,

Sou leitor diário deste site e tomo a liberdade de enviar-lhes um texto que traduzi e que talvez possa ser de seu interesse.

Trata-se de "A República de Otária", de Raúl Scalabrini Ortiz, uma parábola econômica bastante conhecida na Argentina.

Scalabrini Ortiz (1898-1959), jornalista, economista e militante político argentino, escrevia sobre Economia em linguagem simples e acessível, denunciando sem papas na língua a ação do imperialismo britânico e seus cúmplices na Argentina, principalmente nos setores ferroviário e petrolífero. Inicialmente vinculado à União Cívica Radical, integra nos anos 40, juntamente com Arturo Jauretche e outros, o grupo de militantes radicais que se converte ao peronismo. Entre seus livros, destacam-se \"El hombre que está solo y espera\" e \"Bases para la reconstrucíon nacional\".

Sem intuito algum de bajulação, pode-se dizer que, pelo estilo e conteúdo de seus escritos e pela repercussão que alcançaram, teve, na Argentina dos anos 30-40-50, um papel equivalente ao de J. Carlos de Assis no Brasil das últimas duas ou três décadas.

Saudações, Henrique Magalhães"

Suponhamos que na vasta extensão do Oceano Atlântico, entre a África do Sul e o Rio da Prata, exista uma comarca ainda desconhecida. É um país fértil, cujas terras cultiváveis somam quase trinta milhões de hectares. Tem uma população de vinte milhões de habitantes. Denomina-se, no planisfério do imaginário Mercator, República de Otária. Seus habitantes atendem, portanto, pela designação genérica de otários, o que é simbólico, pois, conquanto a palavra otário não figure no dicionário da Real Academia, tem na linguagem vernácula uma acepção precisa: otário é quem troca uma coisa real e cotizável por algo sem valor (uma palavra, um conceito, uma ilusão, um elogio interessado); é quem troca, por exemplo, um suculento bife por um elogio a sua generosidade e seu espírito democrático. O corvo era um otário; a raposa, uma malandra.

Otária produz mais do que necessita para viver. Cada otário consome anualmente cem quilos de carne, duzentos quilos de trigo, cem litros de leite e cem quilos de milho, que em parte transformam-se em ovos e carne de ave. O excedente da produção é trocado por combustível. Não nos ocuparemos deste comércio e daremos por certo que os valores nele envolvidos se equivalem. Os otários precisam realizar algumas obras públicas para abrir os horizontes da vida larvar que vivem. Seus economistas convenceram-nos de que devem recorrer ao capital estrangeiro, porque Otária está órfã de capital. Nós nos dispomos a cumprir essa missão civilizadora. Para tanto, é indispensável que façamos uma pequena revolução e assumamos o poder. Nunca faltarão otários dispostos a servir aos elevados ideais simbolizados por nós e pelos grandes empreendimentos que nos prontificamos a executar.

A unidade monetária deste simpático país é o otarino. Tem o mesmo valor legal de um peso argentino e cotação paritária. Os alimentos e a matéria-prima de Otária valem exatamente o mesmo que seus similares argentinos. Para simplificar o exemplo e a interpretação, usaremos cifras redondas. A técnica não se altera por um centavo a mais ou a menos. Talvez nos convenha abrir uma instituição de crédito em Otária. Mas talvez não precisemos fazer isto; os mecanismos de crédito internacional podem suprir perfeitamente a ausência de um banco local. Se queremos abrir um banco, nos munimos de uma carta de crédito na qual o Banco Central da República Argentina afirme que existe depositada à nossa disposição uma dada soma (cem milhões, por exemplo) em ouro ou moeda conversível, ou que se responsabiliza por esta quantia. Isto basta. A carta de crédito do Banco Central da República Argentina é palavra sagrada na República de Otária. Em outra ocasião, uma carta de crédito- digamos, de apresentação- foi todo o capital que investiram neste país os mais poderosos bancos estrangeiros: o Banco de Londres e América do Sul, o ex-Banco Anglo-Sul-Americano, o First National Bank of Boston, o National City Bank of New York. Tomaremos providências, isto sim, para que os relatórios do Banco Central de Otária diga algo similar ao que o Banco Central da República Argentina afirmou em seu relatório de 1938: a conveniência de "converter as divisas em ouro e deixar esse ouro depositado nos grandes centros do exterior... não só pela economia que implica não movimentar fisicamente o metal, mas principalmente por facilitar-se, deste modo, sua pronta e livre disposição com o mínimo de repercussões psicológicas". Este argumento, que foi convincente para nós, pode ser aceito pelos otários, que nos comprazemos em imaginar cidadãos tão crédulos, liberais e democráticos quanto nós. Nos Estados Unidos, a operação não poderia ter sido realizada, pois aqueles cowboys são tão desconfiados que, até 1914, não permitiram o ingresso de nenhum banco estrangeiro e, para impedir infiltrações sub-reptícias, nem sequer permitiam que seus próprios bancos tivessem agências no exterior. Posteriormente, cederam ao estabelecimento de filiais de bancos estrangeiros, que não podiam emprestar nem um dólar a mais do que o capital que efetivamente haviam trazido do exterior. Mas em Otária são tão liberais como nós.

Já estamos instalados em Otária e dispomos de um capital virtual- como são todos os capitais- de cem milhões de pesos argentinos, que respalda nossa responsabilidade sem necessidade de sairmos desta República. Em Otária vive um técnico de grande reputação, o Dr. Postbisch (1), cujos serviços profissionais contratamos com a devida antecipação, e cuja responsabilidade e lealdade para conosco aumentam à medida que nos serve. O Dr. Postbisch, após um breve estudo de uma semana, descobre que os otários estavam vivendo sobre um vulcão. Sem se dar conta, atravessavam "a crise mais aguda de sua história". Os otários não haviam percebido isto; primeiro, porque estavam muito ocupados em criar uma indústria que ampliasse os restritos horizontes da monocultura; segundo, porque haviam pago suas dívidas e não deviam nada a ninguém, com exceção de alguns pequenos saldos comerciais; terceiro, porque viviam aceitavelmente bem, e quarto porque na realidade tratava-se de uma crise "oculta", que demandava a perícia clínica do Dr. Postbisch para ser diagnosticada. Para equilibrar o orçamento nacional- que se desequilibrara mais do que nunca-, para nivelar a balança de pagamentos com o exterior- que dava superávit e dará déficit daqui para a frente-, o Dr. Postbisch, dotado de poderes tão extraordinários que causariam inveja ao próprio Super Homem das histórias infantis, decide desvalorizar a moeda de Otária à terça parte de seu valor. O otarino, que valia um peso, cai até não valer mais do que trinta e três centavos nossos. O Dr. Postbisch denomina esta operação "flutuação do câmbio". Nosso capital de cem milhões, que permanecia em expectativa em sua moeda de expressão originária, triplica se calculado em otarinos. Os produtos de Otária continuam, como é lógico, avaliados em otarinos, e o aumento que o Dr. Postbisch lhes concede é tão pequeno que o desprezaremos, já que de todo modo não variam os resultados em seu conjunto. Postbisch, cuja verborragia é assombrosa, convenceu os otários de que tanto a desvalorização de sua moeda como a estabilização dos preços são indispensáveis para escapar do vórtice da espiral inflacionária, e que essas medidas devem ser complementadas pela imobilização dos salários e dos soldos. Jesus Cristo multiplicou os pães. Postbisch multiplicou o dinheiro estrangeiro com que se adquirem os pães. Vamos usar a nova capacidade aquisitiva de nossos capitais.

Utilizaremos um só peso, para o caso de nos equivocarmos. Nem sequer nos exemplos devemos arriscar os capitais que foram confiados à nossa administração. Em Otária, com um peso argentino, comprava-se um quilo de carne, que no mercado interno de Otária valia um otarino. A desvalorização da moeda de Otária por recomendação de Postbisch não alterou os preços internos. Com um peso argentino virtual, adquirem-se três quilos de carne. Se exporto à República Argentina um quilo de carne, como lá ele segue valendo um peso, saldo a dívida que havia contraído em meu país com a abertura do crédito. Me sobram dois quilos de carne, que vendo na própria República de Otária a um otarino cada um. E desta maneira, o capital virtual que havia mobilizado no papel transforma-se em um fundo real de duzentos milhões de otarinos, com o qual podemos iniciar a execução de grandes obras que são indispensáveis para a vida desta República, mas que os otários não poderiam ter empreendido nunca por falta de capitais. A ração diária dos otários terá diminuído um terço.

(1) Alusão a Raúl Prebisch, assessor econômico da Presidência da República durante o governo resultante do golpe militar de 55.

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