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Artigos
Uma parábola argentina: A República de Otária
Raúl Scalabrini Ortiz Traduzido por Henrique Magalhães
Nota do Tradutor: "Prezados editores,
Sou leitor diário deste site e tomo a liberdade de enviar-lhes um texto
que traduzi e que talvez possa ser de seu interesse.
Trata-se de "A República de Otária", de Raúl Scalabrini Ortiz, uma
parábola econômica bastante conhecida na Argentina.
Scalabrini Ortiz (1898-1959), jornalista, economista e militante político
argentino, escrevia sobre Economia em linguagem simples e acessível,
denunciando sem papas na língua a ação do imperialismo britânico e seus
cúmplices na Argentina, principalmente nos setores ferroviário e
petrolífero. Inicialmente vinculado à União Cívica Radical, integra nos
anos 40, juntamente com Arturo Jauretche e outros, o grupo de militantes
radicais que se converte ao peronismo. Entre seus livros, destacam-se \"El
hombre que está solo y espera\" e \"Bases para la reconstrucíon
nacional\".
Sem intuito algum de bajulação, pode-se dizer que, pelo estilo e conteúdo
de seus escritos e pela repercussão que alcançaram, teve, na Argentina dos
anos 30-40-50, um papel equivalente ao de J. Carlos de Assis no Brasil das
últimas duas ou três décadas.
Saudações,
Henrique Magalhães"
Suponhamos que na vasta extensão do Oceano Atlântico, entre a África do
Sul e o Rio da Prata, exista uma comarca ainda desconhecida. É um país
fértil, cujas terras cultiváveis somam quase trinta milhões de hectares.
Tem uma população de vinte milhões de habitantes. Denomina-se, no
planisfério do imaginário Mercator, República de Otária. Seus habitantes
atendem, portanto, pela designação genérica de otários, o que é simbólico,
pois, conquanto a palavra otário não figure no dicionário da Real
Academia, tem na linguagem vernácula uma acepção precisa: otário é quem
troca uma coisa real e cotizável por algo sem valor (uma palavra, um
conceito, uma ilusão, um elogio interessado); é quem troca, por exemplo,
um suculento bife por um elogio a sua generosidade e seu espírito
democrático. O corvo era um otário; a raposa, uma malandra.
Otária produz mais do que necessita para viver. Cada otário consome
anualmente cem quilos de carne, duzentos quilos de trigo, cem litros de
leite e cem quilos de milho, que em parte transformam-se em ovos e carne
de ave. O excedente da produção é trocado por combustível.
Não nos ocuparemos deste comércio e daremos por certo que os valores nele
envolvidos se equivalem. Os otários precisam realizar algumas obras
públicas para abrir os horizontes da vida larvar que vivem. Seus
economistas convenceram-nos de que devem recorrer ao capital estrangeiro,
porque Otária está órfã de capital. Nós nos dispomos a cumprir essa missão
civilizadora. Para tanto, é indispensável que façamos uma pequena
revolução e assumamos o poder. Nunca faltarão otários dispostos a servir
aos elevados ideais simbolizados por nós e pelos grandes empreendimentos
que nos prontificamos a executar.
A unidade monetária deste simpático país é o otarino. Tem o mesmo valor
legal de um peso argentino e cotação paritária. Os alimentos e a
matéria-prima de Otária valem exatamente o mesmo que seus similares
argentinos. Para simplificar o exemplo e a interpretação, usaremos cifras
redondas. A técnica não se altera por um centavo a mais ou a menos. Talvez
nos convenha abrir uma instituição de crédito em Otária. Mas talvez não
precisemos fazer isto; os mecanismos de crédito internacional podem suprir
perfeitamente a ausência de um banco local. Se queremos abrir um banco,
nos munimos de uma carta de crédito na qual o Banco Central da República
Argentina afirme que existe depositada à nossa disposição uma dada soma
(cem milhões, por exemplo) em ouro ou moeda conversível, ou que se
responsabiliza por esta quantia. Isto basta. A carta de crédito do Banco
Central da República Argentina é palavra sagrada na República de Otária.
Em outra ocasião, uma carta de crédito- digamos, de apresentação- foi todo
o capital que investiram neste país os mais poderosos bancos estrangeiros:
o Banco de Londres e América do Sul, o ex-Banco Anglo-Sul-Americano, o
First National Bank of Boston, o National City Bank of New York. Tomaremos
providências, isto sim, para que os relatórios do Banco Central de Otária
diga algo similar ao que o Banco Central da República Argentina afirmou em
seu relatório de 1938: a conveniência de "converter as divisas em ouro e
deixar esse ouro depositado nos grandes centros do exterior... não só pela
economia que implica não movimentar fisicamente o metal, mas
principalmente por facilitar-se, deste modo, sua pronta e livre disposição
com o mínimo de repercussões psicológicas". Este argumento, que foi
convincente para nós, pode ser aceito pelos otários, que nos comprazemos
em imaginar cidadãos tão crédulos, liberais e democráticos quanto nós. Nos
Estados Unidos, a operação não poderia ter sido realizada, pois aqueles
cowboys são tão desconfiados que, até 1914, não permitiram o ingresso de
nenhum banco estrangeiro e, para impedir infiltrações sub-reptícias, nem
sequer permitiam que seus próprios bancos tivessem agências no exterior.
Posteriormente, cederam ao estabelecimento de filiais de bancos
estrangeiros, que não podiam emprestar nem um dólar a mais do que o
capital que efetivamente haviam trazido do exterior. Mas em Otária são tão
liberais como nós.
Já estamos instalados em Otária e dispomos de um capital virtual- como são
todos os capitais- de cem milhões de pesos argentinos, que respalda nossa
responsabilidade sem necessidade de sairmos desta República. Em Otária
vive um técnico de grande reputação, o Dr. Postbisch (1), cujos serviços
profissionais contratamos com a devida antecipação, e cuja
responsabilidade e lealdade para conosco aumentam à medida que nos serve.
O Dr. Postbisch, após um breve estudo de uma semana, descobre que os
otários estavam vivendo sobre um vulcão. Sem se dar conta, atravessavam "a
crise mais aguda de sua história". Os otários não haviam percebido isto;
primeiro, porque estavam muito ocupados em criar uma indústria que
ampliasse os restritos horizontes da monocultura; segundo, porque haviam
pago suas dívidas e não deviam nada a ninguém, com exceção de alguns
pequenos saldos comerciais; terceiro, porque viviam aceitavelmente bem, e
quarto porque na realidade tratava-se de uma crise "oculta", que demandava
a perícia clínica do Dr. Postbisch para ser diagnosticada. Para equilibrar
o orçamento nacional- que se desequilibrara mais do que nunca-, para
nivelar a balança de pagamentos com o exterior- que dava superávit e dará
déficit daqui para a frente-, o Dr. Postbisch, dotado de poderes tão
extraordinários que causariam inveja ao próprio Super Homem das histórias
infantis, decide desvalorizar a moeda de Otária à terça parte de seu
valor. O otarino, que valia um peso, cai até não valer mais do que trinta
e três centavos nossos. O Dr. Postbisch denomina esta operação "flutuação
do câmbio". Nosso capital de cem milhões, que permanecia em expectativa em
sua moeda de expressão originária, triplica se calculado em otarinos. Os
produtos de Otária continuam, como é lógico, avaliados em otarinos, e o
aumento que o Dr. Postbisch lhes concede é tão pequeno que o
desprezaremos, já que de todo modo não variam os resultados em seu
conjunto. Postbisch, cuja verborragia é assombrosa, convenceu os otários
de que tanto a desvalorização de sua moeda como a estabilização dos preços
são indispensáveis para escapar do vórtice da espiral inflacionária, e que
essas medidas devem ser complementadas pela imobilização dos salários e
dos soldos. Jesus Cristo multiplicou os pães. Postbisch multiplicou o
dinheiro estrangeiro com que se adquirem os pães. Vamos usar a nova
capacidade aquisitiva de nossos capitais.
Utilizaremos um só peso, para o caso de nos equivocarmos. Nem sequer nos
exemplos devemos arriscar os capitais que foram confiados à nossa
administração. Em Otária, com um peso argentino, comprava-se um quilo de
carne, que no mercado interno de Otária valia um otarino. A desvalorização
da moeda de Otária por recomendação de Postbisch não alterou os preços
internos. Com um peso argentino virtual, adquirem-se três quilos de carne.
Se exporto à República Argentina um quilo de carne, como lá ele segue
valendo um peso, saldo a dívida que havia contraído em meu país com a
abertura do crédito. Me sobram dois quilos de carne, que vendo na própria
República de Otária a um otarino cada um. E desta maneira, o capital
virtual que havia mobilizado no papel transforma-se em um fundo real de
duzentos milhões de otarinos, com o qual podemos iniciar a execução de
grandes obras que são indispensáveis para a vida desta República, mas que
os otários não poderiam ter empreendido nunca por falta de capitais. A
ração diária dos otários terá diminuído um terço.
(1) Alusão a Raúl Prebisch, assessor econômico da Presidência da República durante o governo
resultante do golpe militar de 55.
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